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TRIBUNA de EduardoRibeiroAlves

«Daqui manifesto e apregoo a minha opinião, porque... sou LIVRE!»

TRIBUNA de EduardoRibeiroAlves

«Daqui manifesto e apregoo a minha opinião, porque... sou LIVRE!»

RECORDANDO...Catarina!!

Às vezes releio o que em tempos idos escrevi, publiquei ou postei... Hoje reli e recordei Catarina...já foi há uns anitos!

« domingo, 6 de Setembro de 2009

CATARINA, ontem e hoje.

 sem nome.png

Catarina (nome fictício) é o nome que serve para identificar aqui uma das professoras mais lutadoras. Catarina, tal como a outra, a Catarina Eufémia... mulher de baixa estatura física mas de imensurável coragem!
Assim, durante toda a sua vida docente, muito a admirei pela sua frontalidade e mesmo ousadia com que defendia as suas posições. E, nas reuniões de então, parecia um megafone, apelando aos sete ventos contra o fascismo, o capitalismo e a ditadura. E fazia-o duma maneira tão convicta e corajosa que me impressionava. Ao longo dos anos mostrou sempre de forma intransigente a sua luta, em nome da justiça, da democracia, da afirmação pelas suas ideias, pelo seu ideal mesmo político.
Os anos passaram, para ela e para mim. E hoje, de vez em quando, cruzamo-nos na rua, no café, na escola...
Mas Catarina mudou.
E mudou muito, e hoje ou não me entende, ou ficou dura de coração e já não sente o pulsar do combate. Confesso que tentei ,por várias vezes, ao longo dos dois últimos anos, dar-lhe alguns fortes abanões. Mas não resultou! Catarina está mole, empedernida. Catarina perdeu aquele brilho nos olhos, aquela coragem, aquele ânimo. Não lhe quero mal, bem pelo contrário!
E admito que Catarina se tenha finalmente cansado que tenha desfalecido pela dureza da luta e do combate, que tenha mesmo desertado pela traição das armas dos camaradas e que se tenha dado conta que... juntando-se ao rebanho, não dando nas vistas, não fazendo ondas, não levantado poeira, que possa levar uma vida mais calma, sem tantas angústias familiares e profissionais. Admito que isto tenha acontecido a Catarina, tal como tem vindo a acontecer a muitos outros  combatentes, que, perante a agudeza da luta, entram em pânico, desfalecem, desmaiam, enlouquecem, fogem e acabam por mesmo por ser mortos ou desaparecidos em combate. Opções difíceis, mas quiçá mais pragmáticas do que teimar o combate e acabar medalhado na sua coragem e valentia mas... a título póstumo!
Há cerca de dois dias vi Catarina na Escola: triste, apagada, uma sombra de outrora! Mesmo assim olhou-me longamente nos meus olhos e conseguiu num relance ler neles tudo o que eu tinha para lhe dizer e contar... sem eu nada dizer, gritar, saltar ou gesticular ela leu tudo nos meus olhos, depois, virou-se para mim e com desespero, mágoa ou exaustiva dor segredou-me ao ouvido:
- Daqui para a frente, tenho é que pensar nos meus dois filhos. Só quero preocupar-me com os meus dois filhos e nada mais!
Desviei o olhar e afastei-me.
Afastei-me e fugi com os meus olhos toldados por duas teimosas lágrimas de raiva e de tristeza! Depois dei comigo a perguntar-me porque estava a acontecer tudo isto a Catarina?! Porque é que Catarina resistente ao fascismo, ao salazarismo, à noite escura e pidesca, às leis injustas, aos ataques à classe, à injustiça, a tudo e todos e... se encontra agora tão exausta?! Agora se rendeu! Agora se aborregou?!...
Ah, Catarina de ontem e Catarina de hoje!...
Finalmente descobri.
E ao descobri-lo fiquei, também eu, petrificado e assustado.
E sinto-me agora com medo, muito medo, Deus meu!
É que... os tempos de hoje são piores do que aquilo que se julga.
É certo que hoje, já não há armas na rua, nem tiros, nem chicotes, nem canhões de água, nem cocktails molotofs, nem torpedos bengalórios, nem cassetetes, nem paus, nem punhos cerrados, nem gritos, nem palavras de ordem, nem revolta! Hoje, já não há nada disso, porém a luta é muito pior, muito mais perigosa e muito mais aguerrida!
A luta de hoje é de colarinho branco, é de camisa e gravata lavadas, é de gabinete, é de bufos, é de intriga, de compadrio, de cinismo, de influência, de corrupção, de traição.
E, contra este tipo de luta tão soft... Catarina não é capaz de lutar, porque simplesmente não sabe, porque na sua recruta, na sua instrução e na especialidade da sua arma de infantaria, não foi treinada para este tipo de luta. E este tipo de luta é o mais cobarde, o mais perigoso, o mais temível. O inimigo usa camuflagem por todo o lado, até nos companheiros, camaradas e colegas que se pavoneiam ao nosso próprio lado! E, se a gente ousa fazer um simples comentário, passados poucos segundos já chegou ao conhecimento do chefão, dos seus ouvidores, ou dos seus apêndices! E Catarina sabe muito bem que é assim. Por isso é que, já cansada de tantas punhaladas e de tantas traições, se escuda agora nos filhos, aparentemente se desinteressando da luta e dos combates e ensaiando sorrisos amarelos e desfarçados para a corja de feras, que a rodeiam!
Bem sei, minha Catarina querida, bem sei e compreendo a tua atitude, embora lamente que não prefiras as lágrimas da cela da prisão, do combate e da luta clandestina, do código de honra, do juramento de espada, dos irmãos encapuçados, dos braços suados e das faces frias!
E é esta a luta que é preciso doravante travar... e tu, Catarina, fazes tanta falta por cá neste combate!
Porque esperas?!
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Deixo aqui um epitáfio para tantas Catarinas! Ah, na época (2009), tinha um blog chamado "nomeiodasferas"...

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