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FESTAS de S.TIAGO...genuinidade e cultura popular.

por EduardoRibeiroAlves, em 01.08.17

 

Já lá vão muitos e muitos anos... o Zé Cuco (alcunha por que era conhecido), saía todo chateado da Missa do Domingo da Festa de S. Tiago, Padroeiro da Paróquia de Andrães:

tiago11.jpg

 - S. Tiago de Combostela?!...  Combostela uma grande merda! S. Tiago de Andrães! O S.Tiago é nosso!

Na verdade, o Orador Sagrado (sacerdote) havia proferido uma brilhante homilia sobre  S.Tiago e referiu-se a universalidade e à grandeza do santo, daí ter-se também referido a Santiago de Compostela... mas esqueceu-se da simplicidade de muitas das pessoas residentes  de Andrães.

Cumpre-me talvez o dever de  alinhavar aqui algumas palavras ou mesmo ideias,  sobre as Festas de S.Tiago em Andrães, não sobre as recentes, de 2017, ocorridas há pouco mais duma semana, mas sobre todas as festas em geral,  debruçando-me sobre a tradição, a criatividade e a animação sociocultural, religiosa e comunitária. Espero que as ideias aqui expostas sirvam de contributo, ainda que limitado, para todos aqueles que no dia a dia, ou ano após ano, se preocupam pela realização de mais uma Festa de S. Tiago, enquadrando nela toda a tradição e cultura sagrada e profana do passado, com toda a modernidade e inovação do presente.

Esta festa, durante muitos anos considerada como "Uma das Festas mais típicas do Concelho de Vila Real", realiza-se anualmente no penúltimo domingo de Julho. Essencialmente consiste em três dias de Festa: sábado, domingo e segunda-feira. Ao longo dos anos, foi-se inserindo mais um dia, na sexta-feira e, este ano, até se incluiu uma "procissão de velas" já na quinta feira.Tudo bem. Mas tradicionalmente eram só três dias e com o seguinte Programa:

- Sábado - Manhã, Feira de gado. Missa e distribuição de prémios, à melhor "Junta de Bois", à melhor "Junta de Vacas" e à melhor "Vaca Isolada", no Largo da Igreja.

 Tarde - Futebol Interfreguesias.

- Domingo - Manhã, Arruada de Bombos de Gigantones e duma Banda de Música. Missa. Tarde - Concerto no Largo da Igreja pela Banda de Música.  Procissão. Noite: Arraial com a Banda de Música no Largo da Igreja. 

- Segunda-feira - Manhã, Música Variada da Aparelhagem Sonora. Missa. Tarde, Jogos Populares Transmontanos. 

A Comissão de Festas é nomeada no domingo da Festa e tem duração de um ano, não devendo ser "reconduzida", mas devendo nomear uma nova Comissão. A Comissão deve ser diversificada, devendo ter homens casados e jovens solteiros (rapazes e raparigas). Não é de tradição as mulheres casadas pertencerem à Comissão. A Comissão deverá ter também representantes "internacionais", outrora no Brasil, mas nos tempos de hoje, dadas as mudanças emigratórias, na  Suíça. A missão dos representantes "internacionais" é sobretudo a de conseguirem fundos (esmolas) para que a Festa possa ser  mais brilhante, fazendo um "peditório"  pelos "emigrantes". 

Existe uma Lista (ou Rol), aonde são escritas as "ofertas pecuniárias" dadas por cada pessoa (normalmente por cada chefe de família). O Rol é passado tradicionalmente à Comissão seguinte, para que sirva de guia ou mesmo de registo para a nova Festa e ao mesmo tempo para  não deixar que a "oferta" desça, mas que pelo menos se mantenha. Daí que, se torne frequente, muitas pessoas fazerem ofertas mais avultadas, mas pedirem para que no Rol o seu nome figure com uma "oferta" mais baixa, para que não sejam obrigadas, no ano seguinte, a manterem a mesma importância pecuniária. A Festa termina tradicionalmente com todas as despesas pagas, sendo tradicional "dar alguma coisa" para a Igreja e "passar alguma coisa" para a Comissão seguinte. Existe uma "confiança tácita" nos mordomos da Comissão. E ainda bem.  

O plano e o orçamento para a festa nem sempre é fácil...havendo no entanto "despesas obrigatórias", onde se incluem as missas, o armador da procissão e dos andores, a banda filarmónica, o fogo de artificio e a iluminação.  Modernamente, aposta-se também nos conjuntos musicais e até...num "artista" para " animar ainda mais" Outrora...isto é há muitos anos a trás, não era bem assim. O "piqué" (Aparelhagem Sonora do Crespo ou a Rádio Ideal Senhora de Justes, do Anacleto Taveira), chegava bem e animava grandemente os três dias de festa, contentando todos. O orçamento de então não era tão certo e tão fácil de calcular e tudo dependia do dinheiro apurado  e sobretudo do que chegava dos "emigrantes". A solução era  "cortar" sobretudo no "fogo de artifício", que era "mandado vir"  do tradicional Ramalheda, conforme o dinheiro existente...  Recordo ainda hoje com alguma graça, uma Comissão, constituída por pessoas simples mas honestas,  que metia todas as "ofertas" recebidas em sacas de pano do pão. E que usava como "cofre" uma enorme caixa de milhão (milho)... A Festa desse ano decorria normalmente e até bem, mas, no fim da procissão, o fogueteiro Ramalheda queria saber quantas dúzias de fogo  eram precisas para o arraial e se queriam muitas ou poucas "lágrimas", ou muitos ou poucos "morteiros". Os mordomos encolhiam os ombros, porque as sacas do dinheiro estavam quase vazias e ainda faltava pagar à "Guarda Republicana"... E lá acordaram com o Ramalheda fazer um arraial mais reduzido. Paciência! A Banda Filarmónica  (de Nogueira) tocava no Largo da Igreja e o povo rodopiava de alegria. E foi então quando um mordomo entrou pelo baile dentro, com uma saca de notas e gritou para os outros:

- Eh.... pessoal, afinal na caixa do milhão ainda havia mais esta saca de notas.  Vamos telefonar para o Ramalheda para trazer mais umas dúzias de fogo.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 23:34



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